Eram os anos setenta. Quase todas as professoras, em início de carreira,  do então curso primário, que moravam em Presidente Venceslau, lecionavam em escolas da zona rural, chamadas de Escolas de Emergência, que eram localizadas em sítios ou fazendas, aqui ou em cidades próximas; algumas mais distantes, outras menos.
Para irmos de casa até as escolas, as quais distavam umas das outras de 15 a 50 quilômetros, havia poucas alternativas: ou fazíamos rodízio de carros, mas poucas de nós tínhamos esse luxo; ou alugávamos um carro maior, tipo Kombi, para transportar todas ou morávamos na fazenda onde a escola se localizava.
O compartilhamento de um carro ou de uma Kombi pesava muito para cada uma, pois já naquela época, professor ganhava pouco; gastávamos cerca de um terço de nosso salário em transporte. Muitas meninas optavam, então, por morar na fazenda e submetiam-se a uma vida de privações e de solidão.
Ela, minha amiga, decidiu morar com os caseiros da fazenda onde ficava a Escola de Emergência da Fazenda Xavier, localizada antes de Marabá Paulista, às margens da Rodovia da Integração. Com isso perdemos sua agradável convivência diária e sua contribuição mensal; agora só participava da viagem às segundas e sextas feiras. 
Era uma de minhas melhores amigas. Uma morena alta, cabelos encaracolados, pernas longas e bem torneadas, meiga, educada e muito delicada, pele de pêssego e lábios sensuais, mas também competente e muito perseverante em seus objetivos. Quando viajava conosco contava detalhes de sua permanência na fazenda, do sol a pino que enfrentava após a aula até chegar à casa do caseiro, do medo de atravessar sozinha uma enorme área de pasto, onde alguns e não muito simpáticos bois e vacas pastavam, com cara de poucos amigos. O quarto que dividia com duas crianças, que frequentavam suas aulas, o cuidado do casal em agradá-la e a enorme simplicidade da casa e da alma dos caseiros. 
Sabíamos que o dono da fazenda era muito exigente e preferia que as professoras morassem na fazenda o que garantia que não haveria sucessivas faltas. E assim, minha linda amiga passou um ano inteiro morando humildemente e, segundo ela, vivendo uma vida solitária, sem telefone nem televisão, mesmo que em preto e branco. A simplicidade da família determinava o nível de diálogo que versava sempre sobre natureza, temperatura, plantações, a escola. Nenhum aprofundamento, nenhuma abstração, e o silêncio da noite que parecia doer, apenas quebrado pelo som dos grilos ou pelo coaxar dos sapos.  Ler era a válvula de escape para preencher as longas horas das tardes após as aulas e das noites intermináveis.
Mais sensível porque mulher, a esposa do caseiro, Dona Maria, preocupava-se, a seu modo, com a alimentação da professorinha, consequência do orgulho de hospedar, em sua casa, a pessoa mais importante que conhecia. Conforme, minha amiga, o cardápio era recorrente e carregado na “sustância”: arroz, feijão gordo, farofa e ovo frito. A preocupação de Dona Maria fê-la perceber que pelo adiantado da hora do almoço da professora, após a aula, principalmente o ovo frito estava sempre frio. Enfastiada por saber, previamente, qual seria o cardápio repetido e sem atrativos, minha amiga, certo dia foi surpreendida com o ovo frito há alguns longos minutos, dentro do óleo no qual fora preparado. Disse-nos minha amiga: O ovo parecia um barquinho à deriva, “boiando” tranquilamente sobre a “banha vegetal”! A professorinha engoliu duro, a visão não era agradável; previu o sabor;  nisso foi surpreendida por Dona Maria que, alegremente, diz: O “fessora”, deixei o ovo no óleo pra não esfriá! 
Um lindo sorriso iluminou o rosto da professorinha em sintonia com a pureza de Dona Maria. Apesar da situação culinária inusitada, disse minha amiga, que o ovo flutuante parece ter adquirido um sabor especial, sobrepondo-se à temperatura fria e ao excesso de óleo impregnado.
O tempo inexorável, como sempre, passou; trouxe alegrias e dissabores para as nossas vidas: casamos, tivemos filhos e evoluímos como seres humanos, embora tenhamos nos perdido de vista. Soube há pouco tempo que minha amiga não está mais no mundo dos vivos: um severo Mal de Parkinson a tirou do convívio dos filhos, do marido e dos amigos, precocemente. Mas, certamente, durante o ano em que morou na Fazenda Xavier deve ter marcado, indelevelmente e positivamente, o coração e a personalidade de seus alunos e do casal que a acolheu em sua “humilde  residência”. 
“Disse Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá...” (João 11: 25 – 26)
(*) Aldora Maia Veríssimo – AVL – Cadeira nº 04


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