Gosto muito de viajar. Viajar nos possibilita conhecer lugares novos e principalmente nos possibilita ter tempo para olhar mais para dentro de nós mesmos e conhecer-nos mais, rever nossos conceitos e aprimorar nossos valores mais íntimos. Mas, o que me encanta mesmo é conhecer tipos humanos impensados nos mais impensados lugares.
Há poucos dias, após o tão propalado passeio de trem por Serra Verde, e termos saboreado um incrível “barreado”, num restaurante famoso, andando por uma pracinha, em Morretes, cidadezinha paranaense, fomos embalados por uma bela música colombiana, que encheu a todos de uma alegria genuína: o som e a simplicidade do lugar, predispunham à paz e à contemplação.
Barracas com doces típicos, peças de artesanato com motivos locais, artigos de praia, e de repente, algo me chamou a atenção. Um rapaz de cerca de 40 anos, rodeado de pessoas curiosas às quais me juntei, pintava peças de cerâmica (piso), com tinta óleo e pasmem, com as pontas dos dedos: Nenê Dedo Mágico, é assim que se denomina. Vários quadros estavam expostos próximos a ele. Lindos, extrema harmonia de cores e traços, paisagens marítimas, florestas, animais e reprodução perfeita de fotos de pessoas famosas.
Aproximei-me para observar sua habilidade, à qual me curvo, exatamente por não ter o menor jeito para desenhar ou pintar. Sentado em um caixote, com seu material de trabalho sobre outro caixote, vestido com modéstia. O processo é sempre o mesmo: podemos escolher o motivo a ser pintado ou deixá-lo criar espontaneamente. Normalmente pergunta o nome da pessoa interessada e a cor de sua preferência, escreve o nome da pessoa com a cor escolhida e sobre o nome dá início ao processo de criação: mergulhando as pontas dos dedos nas diversas cores de tinta, utiliza-as puras ou misturando-as e vai com as pontas dos dedos “tecendo” imagens e destacando detalhes, nuances, traços, esfumando com parte da palma das mãos, acrescentando pontos de cores superpostas criando alto relevo, enfim, em menos de cinco minutos o quadro está pronto. Acrescenta um verniz para deixá-lo impermeável e pede que o deixemos secar por 48 horas para evitar danos.
Pedi que pintasse uma paisagem com um flamboyant e acompanhei, com a respiração suspensa, as cores se espalhando, se organizando e formando imagens lindas: em poucos minutos, estava pronta uma paisagem com uma árvore florida, à margem de um pequeno rio, uma casinha simples e uma pequena canoa, um céu límpido e azul e um arvoredo à distância. Durante o rápido processo de criação, mantém os olhos baixos e os dedos ágeis como movidos por fios invisíveis. Impressionada, comecei a perguntar sobre sua arte. O pai de Nenê também pinta e seu irmão também. Todos vivem dessa arte. Desde a infância sempre gostou de desenhar com lápis preto ou de cor. Na adolescência começou a usar tinta e seu instrumento de criação era o spray. Foi aconselhado pelo pai a não usar o spray por ser prejudicial à saúde dos pulmões. A necessidade de pintar levou-o a desenvolver outra técnica, daí usar os dedos e a palma das mãos. Em três a cinco minutos uma pequena maravilha está pronta. Nenhum motivo se repete. As pessoas ficam embasbacadas: um sorriso terno se espalha e espelha a perplexidade e a reverência que o talento de Nenê desperta em todos.
Conversando mais com ele, foi possível constatar sua simplicidade e seu desapego das ambições mais comuns. Disse-me seu nome mas prefere ser chamado pelo apelido: “É assim que todos me conhecem”. Tenho seu telefone e o adicionei no Facebook. Vou mandar para ele este texto, simples demais diante de seu talento, mas é o que sei fazer, escrever, simplesmente escrever sobre tudo o que me toca e devo admitir, fiquei deveras impressionada com o talento e a simplicidade de Nenê Dedo Mágico.
E um questionamento se impõe: esse talento é herança genética ou herança divina? Há habilidades que desenvolvemos, capacidades que exercitamos, técnicas que assimilamos, mas o dom para criar belezas como as que vi, realmente, não consigo atinar. Quantos artistas como esse estão espalhados por este país continental? Talentos verdadeiros à margem da fama, do dinheiro fácil e das badalações, mas realizados pelo simples e pleno prazer de conseguirem expressar o que lhes vai na alma.
“Não esconda os seus talentos. Para o uso eles foram feitos.” (Benjamin Franklin)
(*) Aldora Maia Veríssimo – AVL – Cadeira nº 04


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