Mariana, presente! Brumadinho, presente!
O que dizer diante de tanto sofrimento? 
Quantas vidas se perderam pela morte e quantas se perderam e se perderão pela falta de vida? É isso: muitos perderam a vida levados pela lama e outros mais pela asfixia da dor da perda e do sofrimento que permanecerá por todo o tempo em suas vidas vazias.
De novo! Como entender que uma tragédia aconteça com as mesmas características de outra já consumada? Não aprendemos pelo exemplo? Não aprendemos pela dor? Somos ou não uma espécie inteligente? Somos ou não criados à imagem e semelhança de um Deus de amor? É possível seres humanos tão desprovidos de sentimentos, que embora saibam do perigo eminente, nada façam para evitá-lo?
A mim, ser humano normal, não me sinto capaz de racionalizar e elaborar uma canalhice dessas. Entendo que o dinheiro seduz, que quanto mais se tem mais se quer, que o “capitalismo selvagem” entorpece os sentimentos humanos. Mas, caramba, é muita crueldade, muito descaso, muita ganância, muita vilania!
Barragens construídas de forma ultrapassada, laudos falsos, descuido na observação dos sinais que a própria estrutura apresenta sobre sua precariedade, sirenes que não funcionam porque colocadas em local já condenado, lucros abusivos sobrepondo-se aos cuidados mínimos com a vida humana, ambiental e psíquica de todos os seres. Além do homem, também a fauna e a flora ignoradas e vilipendiadas.
O cálculo do número de mortos e desaparecidos transforma-se numa fria contagem, mas o cálculo da extensão de solo afetado e das águas contaminadas transforma-se numa equação infinita e assustadora.
Estamos encontrando e identificando corpos vitimados, ajudando desabrigados e os que sofreram perdas, mas onde estão os culpados desse crime hediondo? Quem são e onde estão todos os que sabiam dos problemas e de suas consequências e fizeram “vistas grossas”, negligenciaram, prevaricaram, não informaram, não fizeram nada?
Uma plêiade de homens e mulheres valorosos: bombeiros à exaustão (nosso eterno reconhecimento!), os encarregados da higienização, as pessoas que se propuseram a tocar a “cozinha” para alimentação dos envolvidos, os milhares de doadores dos produtos necessários aos atingidos, helicópteros, viaturas, lágrimas que não cessam, orações ininterruptas, todos irmanados para enfrentar e suavizar as dores de Brumadinho. Assim também ocorreu em Mariana. E as centenas e centenas de outras minas brasileiras? Até quando teremos que passar por isso? Qual será a próxima?
Há que se punir exemplarmente os culpados. Há que se prevenir novas tragédias, novas mortes, novos sofrimentos. Há que se evitar que novos lamaçais se estendam sobre corpos brasileiros soterrando vidas e sonhos; evitar que a lama tóxica enegreça pulmões e uniformes, pastos e árvores e pássaros e animais; evitar que os mananciais e as águas sejam poluídas e faltem para matar a nossa sede de justiça. E nós, todos, que lá não estamos, assistimos pasmados e incrédulos a um triste episódio cujos culpados têm nome, RG e endereço e, talvez, mais uma vez saiam ilesos, a exemplo de Mariana.   
Escrever é saber lidar com as palavras e com elas estabelecer e ampliar imagens; e a metáfora que me vem à mente, toda vez que vejo, repetidamente, na TV, as imagens impactantes da lama deslocando-se, ganhando movimentos, esgueirando-se, enovelando-se e precipitando-se sobre Brumadinho, não consigo deixar de relacioná-las com “a lama de corruptores e corruptos que sufoca e paralisa nosso país”.  A lama real e a lama figurada são a nossa marca, infelizmente!
E se fosse hoje, a primeira viagem tripulada à Lua, provavelmente Yuri Gagarin, o grande astronauta russo, não diria “A Terra é azul”, como em 1961. Porque, então, a lama da barragem da Vale teria manchado de marrom a imagem deste planeta tão desrespeitado. Que Deus se compadeça dos sobreviventes da tragédia de Brumadinho  e de todos os demais brasileiros!
(*) Aldora Maia Veríssimo – AVL – Cadeira nº 04
 


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