O Clube de Leitura da Academia Venceslauense de Letras está em plena atividade. Continuamos nossas leituras de mulheres escritoras. Em fevereiro, por sugestão do acadêmico Dr Tácito, lemos “Perto do Coração Selvagem” da maravilhosa escritora Clarice Lispector.
Neste sábado, 09 de março, nos reunimos para conversarmos sobre a obra lida. O enredo, as estratégias narrativas, as características tão lispectorianas, seu intimismo que transborda nas linhas e, principalmente, nas entrelinhas, a expressão de sua angústia existencial, podem dificultar o entendimento de seus textos, mas, paradoxalmente, encantam e seduzem.
Joana, a protagonista, através de fluxos de consciência, apresenta sua vida interior, de menina à fase adulta, contrapondo alternadamente o passado e o presente, conforme as marcas de sua memória. Perdeu a mãe muito pequena, viveu com o pai pouco tempo, ele morre quando ela ainda era uma menina. Foi viver com os tios, onde a convivência, principalmente, com a tia tornou-se insuportável, devido à hipocrisia com que era tratada. É levada a viver em um colégio interno onde suas características tão peculiares a comflitavam com as demais adolescentes.
Sonhadora, provocativa, questionadora, resistente às aparências sociais, tinha vocação para o maldade (“... dou para o mal”), tem dificuldade em expressar seus sentimentos, não entende o que sente, não sabe a que veio, (“Não sei dizer quem sou”), as mais íntimas sensações são como um mistério (“Estou sofrendo?”).
Tem uma paixão platônica, quando adolescente, por um professor, sofrendo as agruras da primeira paixão. Casa-se, mas sabe que o marido mantém um relacionamento com a ex-namorada. E, embora não aceite, percebe que “tem um corpo feito para o amor”. Envolve-se com um homem desconhecido, tornam-se amantes, embora desconheça seu nome.
Quando sabe que seu marido terá um filho com a amante, enfrenta a situação sem escândalo, como uma forma de autoconhecimento, mas acalenta a ideia de também dar um filho ao marido, o que não acontece. O marido e o amante a deixam e ela, com a herança legada pelo pai, viaja sozinha, tencionando resgatar-se como ser humano. Viagem de navio, onde a água representa uma de suas características marcantes.
Fica claro ao leitor de Clarice que para além da historiazinha percebida, a beleza de sua obra está nas indagações e angústias interiores destacadamente femininas e que vão ao encontro dos sentimentos da maioria das mulheres, suas leitoras ou não. Entender-se no mundo, saber qual seu papel, expressar suas dúvidas e desconhecimentos, ter coragem de admitir que tem dentro de si uma porção obscura, natural em todo ser humano (“Tinha dentro de si um animal”), colocam Clarice em nossa mesa do café da manhã. 
É uma mulher como qualquer outra, com sonhos, decepções, casamento mal ajeitado, intuições indefinidas (“um pouco de febre, batidas desordenadas do coração”), à espera de um milagre (“o tenro ser de luz que tentava viver dentro dela”); que sente dentro de si “sede”, “fome” ou “dor” que não se satisfazem nunca, não importam as circunstâncias. Alguém que às vezes, entende que Deus é o remédio para tudo, embora não faça uso desse “remédio”, porque prefere “viver a dor e o mistério da vida”. Alguém que, não raras vezes, sente-se “um galho seco” ou que “está vivendo menos do que podia”.
São angústias declaradamente femininas e Clarice nos representa. Vale a pena conhecer sua obra. 
Nossa próxima leitura já foi definida: “As Três Marias”, de Rachel de Queiroz, uma escritora não menos admirável que Clarice Lispector. Fica o convite: professores e amantes da Literatura, venham ler conosco! 
“A vida é para quem é corajoso o suficiente para se arriscar e humilde o bastante para aprender.” (Clarice Lispector)
(*) Aldora Maia Veríssimo – AVL – Cadeira nº 04


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