Às vezes, o passado nos volta através de movimentos involuntários da memória, ou por meio da audição de uma música inesquecível. Mas, às vezes, o passado entra por nosso portão adentro personificado em uma “menina” morena, alta, ligeiramente magra, muito elegante, e com o mesmo sorriso de algumas décadas atrás!
Por que ela veio até mim, depois de tanto tempo? Porque na noite anterior sonhara com meus pais: vira nitidamente a meiguice de minha mãe e o sorriso mal disfarçado de meu pai, próximos a uma mesa repleta de assadeiras de bolo caseiro, todos já fatiados. Mas, como é comum, não pôde se lembrar de detalhes. Simples assim: sonhou com meus pais a quem ainda “ama de paixão” e por isso veio me visitar.
Não houve necessidade de protocolos, cuidados ou perguntas; a conversa fluiu como se ainda fôssemos as mesmas meninas que estudaram juntas, moraram na mesma rua, descobriram juntas as primeiras decepções com os seres humanos, e que juntas se encantaram com a descoberta do primeiro amor.
Estudamos na mesma escola durante o antigo primário, éramos sempre as primeiras a recitar poesias nas comemorações cívicas (aparecidíssimas!), fomos balizas da escola durante muito tempo (um modelito brega de “paquita”, à frente da escola, nos desfiles de 02 de setembro), frequentamos a igreja juntas, participamos do Coral da Igreja Nossa Senhora de Fátima (quando o maestro era o Sidney, de Santo Anastácio), fizemos teatro beneficente e cantamos nos shows que o falecido Osmar Pacito fazia no O.R.A.S. Não acreditam? Temos fotos, em preto e branco, mas temos. 
O namoro, o estudo e o casamento nos afastaram. Tivemos filhos; ela teve três filhos, um deles é global. Lindo, simpático e competente. Eu tive dois filhos, um casal; não são globais, mas são também lindos, simpáticos e competentes.
A vida seguiu seu curso. De vez em quando nos vemos e nossa amizade se mantém intacta: hoje somos diferentes em vários aspectos, mas nossa infância tão compartilhada, determinou nosso carinho e respeito mútuos. Sabemos que podemos contar uma com a outra, se necessário.
Lembro-me bem de suas peraltices, de seus comentários espirituosos, de suas “molecagens” que nos faziam rir muito, principalmente nos lugares onde não era permitido. Éramos muito fãs de Roberto e Erasmo Carlos dos quais sabíamos todas as músicas, mas nem eles, nossos ídolos, escapavam de seus comentários mirabolantes, alguns impublicáveis.
Hoje, ela é uma jovem e bela senhora sexagenária (não aparenta, juro!) Elegante, espirituosa, faz ioga, joga vôlei, faz ginástica, canta bem e diz não ter medo da morte. Não quer morrer, mas acredita que já está preparada e não tem medo. Crê, sem receios, que morrer deve ser tão ou melhor que viver. É livre, feliz, não quer amarras nem limites, desprovida de todo e qualquer preconceito, tem muitos amigos. Simpatia talvez seja sua melhor qualidade, e eu a amo muito.    
Apesar do tempo, já distante, em que convivíamos, apesar do hiato que nos foi imposto pela vida, sinto que temos laços muito fortes que nos unem: laços de uma vida simples, de um tempo em que éramos ingênuas e crédulas na vida e nas pessoas, de um tempo em que íamos à igreja sem questionar qualquer dogma ou imposição da religião, de um tempo em que namorar de mãos dadas andando pela praça Nicolino Rondó era um passeio imperdível, de um tempo em que era possível acreditar nos amigos, de um tempo em que as desavenças interpessoais eram conversadas, entendidas e resolvidas sem maiores marcas, um tempo em que nos divertíamos sem malícia ou maldade, um tempo em que conversar, no quarto, com as amigas era um ritual indispensável para manter as amizades sinceras.
 Na verdade, nossa amizade surgiu e se fortaleceu, num tempo em que “éramos felizes e sabíamos que éramos felizes”. E essa certeza formou a base da vida que vivemos até então. E viva a vida para quem sabe vivê-la!  

(*) Aldora Maia Veríssimo – AVL – Cadeira nº 04


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